Piso Radiante

Pavimento Radiante e Perdas Térmicas

Antes de irmos diretos ao assunto, convém percebermos o cenário. Vamos focar-nos no porquê de o isolamento do chão ser tão vital quando optamos por aquecimento radiante elétrico.

Introdução

O piso radiante elétrico costuma ser o “patinho feio” dos sistemas de climatização. A ideia que se ouve por aí é quase sempre a mesma: “isso consome imenso”. É por esse motivo que muita gente acha que esta solução só serve para safar o chão da casa de banho ou divisões muito pequenas.

Mas vamos lá descomplicar: o que é que significa realmente esse “gastar imenso”?

  • Como funciona o piso radiante elétrico: Este sistema usa uma resistência elétrica, o que lhe dá um rendimento de 100%. Na prática, é simples: por cada 1 kW de eletricidade que pagas na fatura, recebes exatamente 1 kW de calor em casa.
  • Como funciona o piso radiante a água (hidráulico): Se tiveres este sistema ligado a uma bomba de calor com um rendimento médio de 3 (o chamado SCOP), a conversa muda de figura. Neste caso, por cada 1 kW de eletricidade que a máquina consome, ela consegue entregar-te 3 kW de calor.

Construção nova ou remodelação?

  • Quer escolhas colocar os tubos de água ou os cabos elétricos, o objetivo final não muda: tens de combater o frio que entra e o calor que foge da casa, para que estejas confortável no sofá.
  • A regra de ouro é esta: a tua casa vai perder sempre a mesma quantidade de calor, independentemente do sistema que lá meteres. Logo, ambos os sistemas vão ter de trabalhar para repor exatamente a mesma energia térmica.

Para sermos diretos e não andarmos aqui com rodeios: se o sistema hidráulico te custar 50€ por mês na fatura, a versão elétrica vai custar-te cerca de 150€. É esta a realidade nua e crua, sem grandes complicações técnicas.

Claro que seria interessante fazer as contas a uma temporada de inverno inteira e comparar o preço de instalação das duas opções (que são bem diferentes) para perceber em quanto tempo o investimento se paga. No entanto, o foco agora não é o retorno do investimento, mas sim perceber como a energia se comporta.

Particularidades na instalação

Normalmente, quando se decide avançar com um sistema a água (hidráulico), o projeto já nasce com isso na cabeça. Todas as equipas se coordenam para garantir que há altura suficiente no chão para colocar um isolamento a sério, como os típicos 3 cm.

Já no caso do pavimento elétrico, a história é quase sempre outra. Raramente se planeia com antecedência. Quando se lembram, acabam por desenrascar com aquelas telas fininhas de 0,5 cm, com a desculpa de que “aquilo reflete o calor”. Mas vamos ser realistas: no meio de uma massa de cimento (betonilha), não há reflexão que valha. Ali o que conta é a espessura e a capacidade do material em travar a fuga do calor, e ponto final.

O grande drama é que, muitas vezes, a decisão de meter o sistema elétrico vem tarde demais. Com o tempo e o orçamento a apertar, acaba-se por escolher a solução mais barata ou a que cabe no espaço que sobrou. O resultado? Perde-se a oportunidade de ter algo realmente eficiente porque o que era bom para a carteira a longo prazo tornou-se inviável no momento da obra.

Isolamento térmico de pavimento

Assumindo um pavimento intermédio aquecido por baixo, os exemplos seguintes mostram as consequências de diferentes soluções de isolamento térmico.

Comparação de perdas térmicas

Sem isolamento
100%
Tela 5 mm
≈80%
Isolamento 1 cm
≈63%
XPS 3 cm
≈38%

Exemplo 1: Obra nova sem qualquer isolamento

Acredites ou não, isto ainda acontece muito, especialmente em casas de banho. Como são áreas pequenas e com potências baixas, a malta nem nota muito o peso na conta da luz. O verdadeiro drama é quando se comete este erro em divisões grandes.

Aqui, o tipo de chão manda muito: se for cerâmica ou pedra, o calor chega à superfície num instante; se for madeira, o processo é bem mais lento.

Obra nova ■
Sem isolamento térmico ■

26,3 W/m²
36,3 W/m²

24°C 
30°CRegularização
Regularização
20°CLaje


19,5 W/m²

1Revestimento final: mosaico, flutuante, madeira, pedra, etc.
2Betonilha de regularização a envolver o cabo/esteira aquecimento.
4Betonilha de regularização a cobrir outras especialidades.
5Laje.

Exemplo 2: Obra nova com 3 cm de isolamento (O cenário ideal)

Esta é a solução que devia ser a norma. Usamos 3 cm de XPS como referência, mas se tiveres cota para meter mais, força nisso! Quanto mais grosso for o isolamento, mais baixa será a fatura e mais rápido é o aquecimento.

  • O ganho real: Ao meteres estes 3 cm, estás a cortar as perdas de calor pelo chão em mais de 62% comparado com não ter nada. É uma diferença brutal.
  • Eficiência: Em vez de estares a aquecer o teto do vizinho de baixo, o calor sobe diretamente para onde tu queres. Conforto rápido e carteira folgada.
  • Atenção: Para isto funcionar, tens de falar com o empreiteiro e as outras especialidades logo no início para garantir que há altura (cota) suficiente no pavimento.
Obra nova ■
3cm de isolamento térmico de pavimento ■

26,3 W/m²
36,3 W/m²

24°C 
30°CRegularização
Isolamento (XPS/PIR)
Regularização
20°CLaje


7,4 W/m²

1Revestimento final: mosaico, flutuante, madeira, pedra, etc.
2Betonilha de regularização a envolver o cabo/esteira.
3Isolamento térmico de pavimento: XPS, cortiça, PIR, etc.
4Betonilha de regularização a cobrir outras especialidades.
5Laje.

Exemplo 3: Obra nova com a “telinha” de 0,5 cm

Isto é o que mais se vê por aí no piso radiante elétrico: aquelas telas de polietileno ou com bolhas de ar, revestidas a alumínio. É uma solução “desenrascada” porque, como só tem 5 mm, não levanta problemas de alturas e não exige que o chão esteja perfeitamente nivelado como as placas de XPS.

O problema é o marketing: vendem isto com a ideia da “reflexão térmica”. Mas sejamos realistas: dentro da massa de cimento ou do cimento-cola, o calor passa por contacto direto (condução). Ali não há nada para refletir.

  • O resultado: Comparado com não ter isolamento nenhum, esta tela reduz as perdas em apenas 19,5%. É melhor que zero? É. Mas ficas muito longe do que seria uma instalação eficiente.
  • Alternativa: Para casos onde não há mesmo altura, existe o aquecimento direto (logo por baixo do acabamento) que falaremos mais à frente, e que acaba por ser mais interessante.
Obra nova ■
0,5cm de isolamento térmico (?) ■

26,3 W/m²
36,3 W/m²

24°C 
30°CRegularização
Tela 0,5cm
Regularização
20°CLaje


15,7 W/m²

1Revestimento final: mosaico, flutuante, madeira, pedra, etc.
2Betonilha de regularização a envolver o cabo/esteira.
3“Isolamento térmico de pavimento”: bolha ar, folha polietileno metalizada ou alumínio.
4Betonilha de regularização a cobrir outras especialidades.
5Laje.
 

Remodelação | Obra Nova

Nas remodelações, o nosso maior inimigo é quase sempre a falta de altura. Quando não há margem para subir muito o chão, a solução passa pelo aquecimento direto. Aqui, o cabo, esteira e a película ficam “encostados” ao acabamento final, logo por baixo do piso.

Exemplo 4: Sem isolamento (Aquecimento Direto)

Imagina que instalas o sistema sem qualquer isolamento por baixo. Os cabos ou as esteiras são cobertos por uma massa autonivelante ou até pela própria cola do azulejo/pedra.

  • O que acontece ao calor: A fuga de energia para baixo continua a ser a mesma (para não complicarmos as contas), mas há um ganho importante: o calor chega muito mais depressa à superfície. Falamos de uma subida de eficiência na transferência de calor de 16,5% na cerâmica/pedra e de 11,4% na madeira.
  • A vantagem prática: Como o calor chega mais rápido ao destino, o sistema atinge a temperatura desejada em menos tempo e desliga-se mais cedo. No final do mês, isto traduz-se em poupança, porque o equipamento trabalha menos horas para te dar o mesmo conforto.
Obra de remodelação ■
Sem isolamento térmico ■

29,3 W/m²
42,3W

24°C 
30°CAutonivelante/Cola
20°CLaje


19,5 W/m²

1Revestimento final: mosaico, flutuante, madeira, pedra, etc.
2Autonivelante ou no caso de cerâmico, pedra possível cola/adesivo.
4Laje.

Exemplo 5: Com 1 cm de isolamento (O equilíbrio possível)

Aqui já jogamos com outra inteligência. Usamos placas de isolamento fininhas (apenas 1 cm), que já vêm preparadas com uma argamassa armada de cada lado. A esteira de aquecimento assenta diretamente sobre estas placas. Depois, é só cobrir com o autonivelante ou com o cola/adesivo e aplicar o revestimento (cerâmica, pedra ou flutuante).

  • A grande diferença: Este centímetro de isolamento, embora pareça pouco, faz uma barreira muito mais eficaz do que as telas finas. É a solução ideal para quem quer eficiência mas não tem os 3 ou 4 cm necessários para o XPS tradicional.
Obra de remodelação ■
Isolamento térmico (1cm placa armada) ■

31,5 W/m²
45,8 W/m²

24°C 
30°CAutonivelante/Cola
Placa armada 1cm
20°CLaje


12,3 W/m²

1Revestimento final: mosaico, flutuante, madeira, pedra, etc.
2Autonivelante ou cola/adesivo técnico.
3Placa de isolamento rígida armada (1cm).
4Laje.

Se já tínhamos ganho velocidade ao aproximar o aquecimento da superfície, ao juntarmos esse 1 cm de isolamento, damos um salto gigante: as perdas de calor descem logo 36,9%. Para uma espessura tão pequena, é um ganho de eficiência impressionante.

Esta é a alternativa ideal para obras novas onde não há “folga” para meter os 3 cm de XPS e a respetiva massa por cima. Se não tens espaço, aproximas o aquecimento do chão final e metes este isolamento fino. Dependendo do que precisares, encontras placas destas com 6 mm, 8 mm ou 10 mm.

Exemplo 6: Película de aquecimento em remodelações

Para quem está a remodelar e quer colocar chão flutuante, a película de aquecimento é uma solução espetacular. É super fina (apenas 1 mm) e funciona lindamente em zonas secas. Se o objetivo for aplicar em zonas húmidas, a opção certa é a esteira AL, que é quase tão fina (1,7 mm) e resolve o problema com segurança.

 

Notas finais

  • Isolar é poupar: Escolhe sempre o melhor isolamento que o teu espaço permitir. O tipo de pavimento radiante que vais instalar dita qual a melhor barreira térmica a usar.
  • A regra dos 3-4 cm: Em obras novas com vizinhos por baixo (pisos intermédios), tenta sempre chegar aos 3 a 4 cm de XPS (Resistência Térmica > 1 m²K/W). Se o chão estiver em contacto com a terra ou com o exterior, o ideal é o dobro: 7 a 8 cm de XPS (Resistência Térmica de 2 m²K/W).
  • Não “abafes” o calor: O que meteres por cima do aquecimento (o chão propriamente dito e as colas) não deve travar a passagem do calor. A regra técnica diz que a resistência térmica desses materiais ( cabo / esteira / película) não deve ultrapassar os 0,18 m²K/W.